O Poder do Hábito

Em 1892, William James dizia “toda a nossa vida, na medida em que tem forma definida, não é nada além do que uma massa de hábitos físicos, emocionais e intelectuais sistematicamente organizados para nossa felicidade ou nosso sofrimento e nos conduzindo irresistivelmente rumo a nosso destino, qualquer que seja ele”.

Nos próximos parágrafos apresento um overview do livro “O Poder do Hábito”, de Charles Duhigg. Foi muito interessante ler o livro ao mesmo tempo em que fazia um paralelo com meus hábitos. Entender a ciência que há por trás dos hábitos é esclarecedor para quem pretende manter seus hábitos bons e mudar seus hábitos ruins.

Todo hábito é iniciado por alguma decisão que tomamos em algum momento em nossa vida. Segundo estudos, mais de 40% das ações que as pessoas realizam todos os dias não são decisões de fato, mas sim hábitos. O cérebro está o tempo todo procurando maneiras de poupar esforço, transformando quase qualquer rotina num hábito, pois os hábitos permitem que nossas mentes desacelerem. Quando ouvimos uma rádio, por exemplo, não queremos tomar uma decisão consciente cada vez que uma nova música é apresentada. As áreas que processam música em nosso cérebro são projetadas para procurar padrões e buscar familiaridade, ou seja, seguir um hábito. Pensando nisso, as estações de rádio incluem novos músicas entre outras já conhecidas para aumentar o senso de familiaridade dos ouvintes e fomentar o sucesso da nova música.

No cérebro, os gânglios basais são os responsáveis por armazenar hábitos mesmo enquanto o resto do cérebro não está “funcionando”, sendo essenciais para recordar padrões e agir com base neles. Já ouviram falar em terror noturno? Alguém em meio a um terror noturno simplesmente segue o loop do hábito até onde quer que ele leve. Em casos extremos, assassinos já foram inocentados alegando que mataram durante um terror noturno, e que, por isso, não tiveram um poder de escolha.

A boa notícia é que os hábitos, conscientemente, podem ser mudados, se entendermos como eles funcionam.

Basicamente, o processo dentro dos nossos cérebros é um loop de três estágios:

loop-do-habito-O-poder-do-hábito-Charles-Duhigg-dica-de-leitura-book

Loop do Hábito

primeiro há uma deixa, um estímulo que manda seu cérebro entrar em modo automático, e indica qual hábito ele deve usar;  em seguida há a rotina, que pode ser física, mental ou emocional; e finalmente há uma recompensa, que ajuda seu cérebro  a saber se vale a pena memorizar esse loop especifico para o futuro.

Além desses três estágios, existe um elemento importante que faz com que as deixas e recompensas funcionem: o anseio. Para fugir das tentações que surgem, é importante focar no anseio pela recompensa para cultivar uma espécie de obsessão. Além disso, com , de acordo com os cientistas, as pessoas aprendem a acreditar em alguma coisa (espiritual ou não), que começa a transbordar para outras partes de suas vidas, até começarem a acreditar serem capazes de mudar. A fé é essencial e cresce a partir de uma experiência comunitária, mesmo que tenha apenas duas pessoas. Isso foi uma das forças motrizes do Alcoólicos Anônimos.

Em um estudo realizado na Universidade de Harvard em 1994 que examinou pessoas que tinham mudado suas vidas radicalmente, os pesquisadores descobriram que algumas delas tinham reformulado seus hábitos depois de uma tragédia pessoal. Em outras tantas situações, não houve uma tragédia. As pessoas mudaram porque estavam inseridas em grupos sociais que facilitaram a mudança.

Quando pretendemos mudar alguma coisa em nossa vida, devemos, primeiramente, identificar um único hábito e focar nele. Tal hábito é conhecido como “hábito angular” e, através dele, podemos reprogramar outras rotinas automáticas em nossa vida. Os hábitos angulares proporcionam “pequenas vitórias” que ajudam outros hábitos a prosperar, criando novas estruturas e culturas com novos valores. O motivo pra isso não é totalmente claro, mas é assim que funciona. 🙂

É importante destacar que os hábitos são delicados, isto é, qualquer alteração pode desarranjar o hábito. Portanto, é importante persistência e disciplina. Para mudar um hábito, precisamos manter a velha deixa e oferecer a velha recompensa, mas inserir uma nova rotina. O “treinamento de consciência” consiste na descrição do que deflagra um comportamento habitual, ou seja, a deixa, para posteriormente, através do que se chama de “reação concorrente” procuremos substituir a rotina por uma nova.

Em outras palavras, é preciso vestir uma coisa nova numa embalagem velha, e fazendo com que o desconhecido pareça familiar. Foi assim que os Estados Unidos implantaram a cultura de miúdos na dieta dos americanos na década de 40 após a redução da distribuição de outros tipos de carne para a população por conta da necessidade de abastecimento das tropas na Segunda Guerra Mundial.

Dezenas de estudos mostram que a força de vontade é o hábito angular mais importante de todos para o sucesso individual. As pessoas aprendem a controlar melhor os seus impulsos, a se distrair das tentações. A força de vontade se torna um hábito através da escolha de certo comportamento de antemão e seguindo uma rotina quando um ponto de inflexão surge. Quando se planeja, a priori, como lidar com algo que nos faz sair da rotina, fica mais fácil sustentar o hábito de força de vontade. Assim, sabemos exatamente o que fazer quando a tentação de sair da rotina aparece. Esse foi um dos segredos para que a Starbucks se tornasse um líder de mercado.

A força de vontade, no entanto, pode ser visto como um músculo que fica cansado quando se faz mais esforço, sobrando menos força para outras coisas. Portanto, se gastamos energia demais em tarefas entediantes, a princípio, teremos menos força de vontade para atividades posteriores. Nesse sentido, a força de vontade deve ser sempre fortalecida para que possa ser empenhada em várias ações sem prejuízo da eficácia. A força de vontade está relacionada com o autocontrole e a autodisciplina. De acordo com um estudo realizado em 2005 por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia com 164 alunos da oitava serie, a autodisciplina tem um efeito maior no desempenho acadêmico do que o talento intelectual.

Nas organizações, o simples ato de dar aos empregados um senso de autonomia, oferecendo-lhes uma certa autoridade para tomar decisões, pode aumentar radicalmente o grau de energia e o foco que eles dedicam ao emprego, aumentando assim a autodisciplina. Afinal, as pessoas querem estar no controle de suas vidas.

Em geral, as organizações são guiadas por hábitos organizacionais de longa data, padrões que muitas vezes surgem das decisões independentes dos empregados. Apesar da propensão a guerras internas, a maioria das empresas segue funcionando em relativa paz, ano após ano, porque tem hábitos que criam tréguas que permitem a todos deixarem suas rivalidades de lado por tempo suficiente para o trabalho do dia ser feito. Para que uma organização funcione, os lideres precisam cultivar hábitos que tanto criem uma paz real e equilibrada quanto, paradoxalmente, deixem absolutamente claro quem está no comando.

Durante uma turbulência, os hábitos organizacionais se tornam maleáveis o bastante tanto para alocar responsabilidade quanto pra criar um equilíbrio de poder mais imparcial. As instituições descobriram que uma reforma geralmente só é possível uma vez que um senso de crise se instala. Uma empresa com hábitos disfuncionais não pode mudar de um dia para o outro simplesmente porque um líder manda. Em vez disso, os executivos sábios procuram momentos de crise – ou criam a percepção de crise – e cultivam a sensação de que algo precisa mudar, até que todos finalmente estejam prontos para reformular os padrões com os quais convivem todos os dias.

Um movimento começa devido aos hábitos sociais de amizade e aos laços fortes entre conhecidos próximos. Ele cresce devido aos hábitos de uma comunidade e aos laços fracos que unem vizinhanças e clãs. E ele perdura porque os lideres de um movimento dão aos participantes novos hábitos que criam um novo senso de identidade e um sentimento de propriedade. Embutido na filosofia de Martin Luther King Jr estava um conjunto de novos comportamentos que converteram os participantes de seguidores em lideres autogovernados. Rick Warren, um líder da igreja batista, focava em converter grupos de pessoas, e não indivíduos, de modo que os hábitos sociais de uma comunidade incentivassem a participação religiosa.

A vida em comunidade cria uma pressão social ou senso de obrigação. A comunidade é pressionada a manter-se unida pelo medo de que qualquer pessoa que não participasse não seria mais digna de amizade. É assim que os negócios são feitos e as comunidades organizam a si mesmas. Manter a reputação entre membros de laço fraco porque eles podem dar alguma contrapartida.

Finalizando, para modificar um hábito, devemos aceitar conscientemente a dura tarefa de identificar as deixas e recompensas que impulsionam as rotinas do hábito e encontrar alternativas. Um hábito é uma fórmula que nosso cérebro segue automaticamente: “Quando eu vejo DEIXA, vou fazer ROTINA para obter RECOMPENSA”. Para remodelá-lo, 1. identifique a rotina, 2. experimente com recompensas, 3. isole a deixa (lugar, hora, estado emocional, outras pessoas, ação imediatamente anterior) e, por fim, 4. tenha um plano.

imagem.aspx

 

Livro: O Poder do Hábito
Autor: Charles Duhigg (Tradução: Rafael Montovani)
Páginas: 408
Editora: Objetiva
Edição: 1 (2012)

 

Anúncios

Sobre adsoncunha

http://about.me/adsoncunha
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s