O quão ágeis devemos ser?

Inicio este post adaptando um trecho do livro de Henrik Kniberg e Matti Skarin: Qual o melhor talher: a faca ou o garfo ? Certamente essa pergunta não faz sentido quando não se tem um contexto definido. Para fatiar batatas, a faca é o melhor talher. Para comer uma macarronada, o garfo é o melhor talher. Para bater na mesa, reclamando pela demora na comida, qualquer um dos talheres pode ser utilizado. Para comer um bife, ambos os talheres são necessários. Para comer batata frita, alguns podem preferir usar um garfo, enquanto que outros podem preferir usar as próprias mãos.

Da mesma forma, alguns podem questionar qual o melhor processo, e assim como no caso dos talheres, a resposta depende do contexto. Existem contextos que exigem processos prescritivos, com muitas regras definidas, enquanto outros exigem processos adaptativos, com poucas regras definidas.  Na Figura abaixo visualizamos uma escala de comparação de alguns processos, como RUP, XP, SCRUM e Kanban. Kanban? Pois é… Kanban! Eu particularmente nunca tinha ouvido falar até ler o livro Kanban and Scrum – making the most of both. De maneira geral é uma espécie de task board mais elaborado para avaliar o trabalho em andamento (WIP – Work In Progress). Certamente não é algo a ser usado isoladamente, em substituição a todas as outras coisas, mas sim um complemento. E o mesmo vale para os demais, retirando-se o excesso do RUP, adicionando-se o que falta no SCRUM, complementando com as práticas do XP e assim vai. O SCRUMMI, um trabalho de mestrado, é um exemplo dessa mistura. Pelo menos na teoria parece legal.

Nos projetos que participei até então procuramos sempre utilizar práticas ágeis junto com o processo de desenvolvimento institucionalizado na empresa, embora muitas vezes atividades deste último sejam atropeladas. Falando um pouco dessa experiência, procuramos dividir as iterações em sprints de no máximo 2 semanas, definindo o sprint backlog (casos de uso ou parte deles) e acompanhando as atividades através do task board e reuniões diárias. O problema que acontece para esse cenário são as mudanças ou problemas inesperados que aparecem no meio das sprints, fazendo com que a prioridade das atividades sejam reajustadas e consequente não finalização da sprint conforme planejado. Apesar de não usar o SCRUM de fato, os conceitos e práticas relacionados ao mesmo têm se mostrado de grande valia.

Muitos reclamam dos processos, sendo alguns por os acharem complexos e detalhados, outros pelo simples fato de não gostarem de seguir processos. Estes últimos às vezes não se dão conta de que muitas das coisas que fazem na vida são guiadas por um processo. Acordamos, tomamos banho, tomamos café, nos arrumamos e vamos ao trabalho ou escola. Se uma dessas atividades não for realizada (propositalmente ou não), iremos sentir falta de alguma coisa: ficaremos fedidos, com fome ou desarrumados.

Diferentemente das atividades matinais acima, enraizadas em nossa cultura há muitos anos, em uma empresa de desenvolvimento de software de médio e grande porte haverá sempre (ou não?) um processo institucionalizado que não agrada a todos ao mesmo tempo. Sempre haverá discordância em algum ponto, seja por acharem determinadas atividades burocráticas demais, seja por acharem que devam ser feitas de maneira diferente. É pra isso que serve a melhoria contínua do processo.

Não me estendendo mais, muitas vezes o que falta é cultura. Cultura para fazer alguma coisa porque é necessário e não porque é obrigado a fazer. Às vezes preferimos ser “ágeis” e não realizamos uma atividade do processo por não achá-la importante ou por falta de planejamento \ falta de tempo e acabamos sofrendo as consequências mais na frente, ficando fedidos, com fome ou desarrumados.

Fiquem à vontade para comentar… 🙂

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2 respostas para O quão ágeis devemos ser?

  1. Jorge Dias disse:

    Concordo totalmente com voce, caro Adson. É exatamente isso que sempre falo aos meus alunos nas disciplinas de engenharia de software. Estou cansado de ver por aí profissionais vestindo a camisa de processos ágeis, ou mesmo de tecnologias. Eu sempre digo aos meus alunos para nao serem radicais, pois este radicalismo limita possibilidades/alternativas.

    abraço.

  2. Solon disse:

    Excelente texto Adson parabéns.
    Devemos estar sempre atentos a utilizar o que há de bom em cada processo, mas é fundamental uma linha padrão, para que nosso trabalho possa ser continuado/mantido pelos nossos companheiros de trabalho.

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